- Versos para poemas não completos
|D|I|S|C|O|P|T|R|I|A|
Como é doce
meu sangue em flancos
Demasiado negro
todo meu resto
Que sem ater-se ao corpo
deseja tudo o mais
Menos sossego
Tonalidades
Palavras quado caem
Pintam o véu do chão molhado
Para escorrer até pararem
No canteiro, enfim
Tornarem-se desassossego.
Substância
Subsisto, sambo
Insisto denso
Assisto tango
Ensino jongo
Existo em sonho.
inVERSO
Quando não mais cantar
Deixo meus cantos mais desafinados
Para que ouçam o quão sujo
Era o trilintar dos meus podres versos.
Quentes vícios, quentes versos.
14.2.06
- Dionisíaca
"[...]
Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor
Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor..."
(trecho de Fica, Chico Buarque, 1965)
6.12.05
- (per)seguindo
Se voltas
Abrem-se portas
Se paras
O tempo segue
As ruas envelhecem
O sol arde as árvores
A lua ilumina os discos
Os raios partem as almas
O vento sopra poeira
Os homens morrem
As folhas secam
Tudo completa ciclos
Vai em frente
O passado só te guarda
A vontade
__________________________de seguir adiante.
2.12.05
- Colagem
Canto em Qualquer Canto
(Ná Ozzetti e Itamar Assumpção)
Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ypê tava vivo
Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso
Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo
Pra cobrir a solidão (trecho)
(Teresa Cristina e Zé Renato)
...
Quero ver quem tem palavra
Pra cobrir a solidão
Quero ver quem tira mágoa
Sem cantar uma canção
....
22.11.05
- arbmol
O porre dele é de cachaça
E d'ele bebado acham graça
O porre dele é de borracha
O porre dele é de bolacha
E ninguém nada acha graça
O gole dele é de volumen
O golpe dele é de pelugem
O corte dele é de lúmen
O copo dele é de ferrugem
Tomadas caem de paradas
O homem dá suas passadas
As gotas caem nos cigarros
As sombras movem 's chocalhos
O riso sofre de presságios
O copo ainda é amargo
Tesouras rompem o silêncio
Ouvido espalha vidraças
Subindo alto pelas ruas
E as aves tomam graça
O céu agora está tão claro
Então dá cá meu agasalho,
Velo Azul.
21.11.05
- poemas encontrados no chão 2...
Santiago
Maximiniano Campos
A tua solidão, Santiago
é a solidão do mundo.
O peixe também estava só,
corria só, por isso, Santiago,
a tua solidão não foi maior.
- poemas encontrados no chão...
Comícios Íntimos
Cyl Gallindo
Olho e vejo a praça:
é um campo aberto
onde se plantam flores
e nasce Liberdade.
Mas acintosamente estão
plantando arames farpados
e placas:
"Não pise na relva".
Plantam - se ainda
olhos e bocas
de fuzis
nas esquinas
e nasce o medo
e eu passo
cautelosamente
e vou fazer Comícios
dentro do meu quarto.
Olho e vejo a Casa:
é um lar inviolável
onde se planta amor
e nascem filhos.
Mas acintosamente estão
Plantados à porta soldados
e uma voz:
- "Ordem superior!"
Plantam-se ainda
vigília
com olhos e ouvidos
dos melhores amigos
e nasce o medo
e eu paro e
sigilosamente
vou fazer Comícios
dentro de mim mesmo.
17.11.05
- "Por que não pensei nisso antes?"
Venho vivo do vai-e-vem
Seduzir a semântica das sílabas
Com o corte
- das paixões
Migalhas da metafísica
E com a razão da loucura
Desenhar os cantos
escondidos
Reprimidos,
perdidos,
ocultos
Não há mais canção lírica alguma
Talvez não haja constância nenhuma
Perco-me em estrofes
Encontro-me em versos e rimas
E me recubro com o véu da poesia
Tão sujo seduzido por outros
fatos e gestos em que não cabem
as minhas mal traçadas linhas.
14.6.05
- MENINA JESUS
(Tom Zé)
Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.
Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.
Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo --
pra tocar.
Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas...
Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão...
Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.
Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.
Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.
Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas
Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão
E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.
Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode.
3.4.05
- Turma dos piratas
Costumavam andar de mãos dadas
Simbolizando a volúpia densa
Rasgada e fora da solidão
Cuidavam de todos sorrisos
Traziam flores nos cantos das orelhas
Papéis carregados de poesia
Simples tal qual o cair das folhas
Sabiam tudo sobre o efêmero
A passagem era só de ida
Não havia regresso
Somente idas
Armavam-se das palavras
Vivas e flutuantes
Faziam o que ninguém havia ousado
Amalgamavam com o rito da Arte
A música às paixões
"Era o barba negra
Com sua turma e suas canções"¹
(J.G.)
¹ Trecho da música "O Pirata" do Ave Sangria.
30.3.05
- ???
Sabes muito quase tanto
Poderias até roubar meu encanto
O teu tanto é quase tanto
Que demoras o vazio, comprido
Subindo os altos da minha emoção
Descem todos pela passagem da tua angústia
Perpassando os montes etílicos
Rodeados de líquidos cândidos
E se espreitam pelos arredores do medo
Saltando a margem turva do espelho
Esperando o assopro doentio
Engulindo lágrimas ofuscadas pelas cores
Sem vísceras de choro e de talento
Abdicou suas formas e se inundou o vão cheio
Ah, quantos ventos se borraram sem cor, na dor...
(J.G.)
28.3.05
- Retomada 1...
Vida de artista
Na vida sou passageiro
Eu sou também motorista
Fui trocador motorneiro
Antes de ascensorista
Tenho dom pra costureiro
Para datiloscopista
Com queda pra macumbeiro
Talento pra Adventista
Agora sou mensageiro
Além de pára-quedista
Às vezes mezzo engenheiro
Mezzo psicanalista
Trejeito de batuqueiro
A veia de repentista
Já fui peão boiadeiro
Fui até tropicalista
Outrora fui bom goleiro
Hoje sou equilibrista
De dia sou cozinheiro
À noite sou massagista
Sou galo no meu terreiro
Nos outros abaixo a crista
Me calo feito mineiro
No mais vida de artista.
(Itamar Assumpção)
7.1.05
- "O novo não me choca mais
Nada de novo sob o sol
O que existe é o mesmo ovo de sempre
Chocando o mesmo novo[...]"
(trecho de Prezadíssimos ouvintes, de Itamar Assumpção e Domingos Pellegrini, do disco Sampa Midnight - Isso não vai ficar assim, 1986)
18.12.04
- "O que se pode prometer: Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários.Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que são conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno."
(Friedrich Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano)
16.12.04
- Aniversário
(Álvaro de Campos)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há
séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião
qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui ¿ ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos
dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há
aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas ¿ doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado ¿,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
18.10.04
PARA CONSTRUIR UM
ALÉM-NADA DA
PÓS-MODERNIDADE
- Sombras de beleza
Já quis fugir, voar
Subir às nuvens
Ficar cego, ser insensível
Conhecer a face oculta de tudo
No entanto, carregamos um fardo:
a barbárie
Catamos migalhas,
Para contruir sem alicerce
O encanto da felicidade,
Supressão dos males d'alma
Sabíamos ponderar.
Não somos mais capazes
De elevar-nos
Somos o desencanto
Onde está indistinto
Se estamos ou somos.
25.9.04
- Memórias (a)guardadas
Tudo seria provinciano
Se não fosse cosmopolita
Sinto isso em cada plano
Mesmo gostando da camiseta de chita
Andei tanto que não andei muito
Envelheci o quanto ainda sou criança
A ampulheta ficou parada
Não tenho nenhuma razão
Sou então amigo da loucura
Revisito o meu surto
Tenho comigo a mais pobre das filosofias
Os amores são lugares revisitados
Se a música me leva
É a embriagez que me carrega
Não, é a nostalgia do antepassado
Mesmo tão longe, sou seu companheiro
As cores se multiplicam
A se misturar em breve monocromia
Cinzas, flores, restos
Te sou grato, grisalho ente eterno.
24.8.04
- Flores do meu tempo
Quando as flores da primavera
Vinham sem impedimento
Sorria-se
Mas agora elas tardam
Não sabe se chora
Ou espera o sorriso
A cidade esconde as cores das estações
Os ruídos, o silêncio
Ontem não existe
Pois hoje espera-se a primavera
Mesmo que não tenha importância
Mas o riso conforta
Mas como também não chorar
Ao ver o colorido das rosas,
Girassóis, gardênias, orquídeas...?
Pétalas, sequelas.
20.8.04
- Existem hábitos que é salutar
se retomar.
Hino do comedido
(Lupe Cotrin)
Não me agradam esses homens bem fracionados no tempo, cedendo-se amavelmente em todas as ocasiões.
E mais também não me agradam os partidários tão vários de toda a moderação.
Passo distante dessa gente comedida e moderada, que guarda o vinho 20 anos para bebê-lo mais velho, homens de ferro que só sabem anunciar a mensagem da espera, que aguardam o momento oportuno, que, sempre expelindo relógios, resistem à melhor viagem, que desconhecem as emoções, que sabem apenas sofrer sincronizados as tristezas publicadas nos jornais.
Adeus, moderados.
Adeus, que sou diferente: compreendo a mulher que rasga as vestes e sinto imensa ternura pelo homem desesperado.